travel
Leave a comment

Um fim de semana no Bernard Loiseau (PT)

Apesar de morar na França há oito anos, ainda nāo conhecia a região da Borgonha (hoje em dia chamada de Bourgogne Franche-Comté).  Conhecida pelos inúmeros vinhedos, criação de gado charolês, aves de Bresse, cassis, queijo époisse (com cheiro fortíssimo, tem a massa mole e crua e a casca lavada com Marc, bebida feita com o bagaço das uvas locais), presunto do Morvan (região borgonhesa), escargots regionais,  e, principalmente, pela famosa mostarda de Dijon, a ida era mais que obrigatória.

Para conhecer o pedaço, nada melhor que me hospedar na pequena e adorável cidade de Saulieu e escolher um clássico local, o Bernard Loiseau, espécie de templo da hotelaria e gastronomia borgonhesa, desses que a gente já tem que entrar ajoelhado rezando, de tanta excelência no atendimento e na cozinha. Com um passado de glorias e uma coleção de estrelas no Michelin, o relais (hotel e restaurante ao mesmo tempo), existe desde o começo do século XX, época em que se intitulava Hostellerie de la Cöte-d’Or e era comandado por Paul Budin –  já com uma estrela no famoso guia gastronômico.

Alexandre Dumaine assume as panelas a partir de 1930, e, com ele, o local adquire mais duas estrelas, recebendo toda a jet set europeia que se hospedava nos Alpes. Gente como o rei da Espanha Alfonso XIII, o príncipe Rainier, o general Juin, Sacha Guitry, Orson Welles, Vivien Leigh, Reynaldo Hahn, Mistinguett, Edith Piaf, Charlie Chaplin, Gary Cooper, Raoul Dufy, Salvador Dali, Rita Hayworth e Bernard Buffet eram habitués do templo gastronômico.

Alexandre Dumaine

Bernard Loiseau

Foi esse local, cheio de historia, que impressionou o jovem chef Bernard Loiseau, que decidiu instalar ali sua cozinha com a ajuda de seu mentor, o chef Claude Verger. Dois anos depois, em 1977, Bernard ganha sua primeira estrela no Michelin. Depois, seguem mais duas. Um chef e tanto se construiu nesse lugar, que até hoje respira essa figura ímpar da cozinha francesa. Bernard faleceu em 2003, e sua mulher, Dominique Loiseau – junto com os três filhos -, tomou as rédeas do estabelecimento.

Bom, historias à parte, passei um final de semana de sonho por ali. A começar pelo local em si, que ganhou mais um complexo, o Villa Loiseau des Sens, com o restaurante orgânico homônimo, dono de uma cozinha leve, saudável e com muito sabor. O spa é um sonho, com 1500m2 e quatro pisos, com 45 cabines de tratamento, dentre eles, o Hydromel, uma cama flutuante para fazer exfoliação e aplicações de algas e de argilas, assim como o Medyjet, um sistema de hidromassagem a seco. A piscina exterior é de encher os olhos: com fundo verde e déco original, é a grande estrela do jardim, que ainda conta com um poço de verdade <3, tudo de bom.

Mas vamos ao que interessa, a comida? Vivi uma experiência sensorial completa, com visual, aroma, tato, tudo. Engordei mais de um quilo nesse final de semana na Borgonha, mas, afinal de contas, tinha que experimentar tudo. O restaurante, sob o comando do bretão Patrick Bertron, é um abuso, de tão bom. Aqui é possível experimentar toda a cozinha borgonhesa de uma só tacada. Comecei com entradinhas « básicas », como coxinhas de rā com purê de alho ao molho de salsa, além de lagostas de tirar o fôlego. Depois, ainda não satisfeita (haha, isso foi piada), pedi filé de pombo: delícia, com gosto de frango, super macio.

Na manhã seguinte, o café da manhã oferecia duas opções, o « em forma » (28€) e o Morvandiau (30€). Pedi o segundo, bem completo, com bebidas quentes, suco de fruta espremido na hora ou com néctar de cassis, presunto do Morvan e terrine à moda da casa. Ainda tinha ovo cozido, pudim de leite, salada de frutas frescas, cestinha de pães como baguette ficelle, pão de cereais, croissant, brioche, bolo caseiro, manteiga, geleias artesanais e mel do Morvan. Um vrai régal! O mais bacana é que a sala onde ele é servido, a Alexandre Dumaine, é classificada como Monumento Histórico francês. Ela ainda conserva a decoração do século passado, com pinturas de faux-bois no muro, na continuação das vigas de madeira do teto, pinturas decorativas nas paredes com motivos em arabescos. O chão em cerâmica de Perrusson ainda está intacto! Na hora do jantar, retorno ao restaurante gastronômico (nem estava com fome para falar a verdade, depois de tantas orgias alimentares). Mas uma ordem é uma ordem. Nabo de todas as formas, Zander (ou Lúcio, tipo de peixe), queijos e sobremesas mil. Fui rezar em baixo da mesa, baixinho.

O que não dá para perder também é a voltinha pela cidade, pequena e adorável. Tem até uma marchinha com os moradores locais <3 Na época em que fui, há três meses, o artista Orlinski expunha suas obras gigantescas nas ruas, como o gorila vermelho, o leão azul e o tigre branco.

Super recomendo aos brasileiros de passagem por Paris (são só 250km de distância): dêem uma passada na cidade e no Bernard Loiseau, nem que seja para o café da manhã. Depois me contem se gostaram <3